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Huginn e Muninn

há 11 minutos
3 min de leitura

*Espaço aberto para texto do amigo Tiago*


A construção da cena se desenrolando era intensamente aterrorizante, como um instinto primitivo, o medo que me fez querer fechar os olhos e desviar o olhar. Mas eu não o fiz. Eu olhei e observei, com a visão física e biológica de meus olhos, junto à visão de poeta que sempre me permitiu enxergar além do comum.


Mas eu pude ver mais.


O além se redefiniu, se ultrapassou, de tal modo que tive medo. Mas era tarde demais.


Eu vi os cabelos brancos de minha mãe através de sua cabeça e, através de sua cabeça, o límbico e o neocortical trabalhando em conflito. A figura de minha mãe, os olhos se enchendo de lágrimas enquanto comia um pedaço de frango, junto à boca trêmula e cheia de farinha. Sua cabeça baixa, como alguém tomado pela culpa, sem saída alguma para se esconder de sua própria vergonha.


Vergonha essa que sua mente se encarregava de apagar, como também apagava as lembranças de suas crises.


Sua mente era um deus de duas faces: apagava a vergonha e as lembranças de suas crises, mas, sozinha, não impedia que as crises acontecessem, nem apagava as dores que as mesmas causavam em sua cabeça.


As cicatrizes eram invisíveis até serem mencionadas.


Ela segurava o choro como alguém que segura a própria vida entre as mãos, como um bêbado que batalha contra o corpo, o álcool e a gravidade para se manter de pé.


Pouco ela se lembrava do que fez.


E eu ainda enxergava tudo, o todo. As camadas sobre camadas da realidade presente. Películas postas entre as outras, tingidas individualmente, mas que, alinhadas, formavam a imagem que eu enxergava e temia.


Ainda assim, eu me recusava a fechar os olhos.


E a realidade se redefinia ao meu olhar, apresentando a mesma imagem, os mesmos momentos e palavras, como se nada daquela cena se repetisse de fato.


A figura de minha mãe triste, de boca suja, com um pedaço de frango em sua boca e um choro preso na garganta. Os olhos cheios, aguardando um dilúvio que não provinha de deus algum.


Mas


eu


ainda


enxergava.


A essa altura, queria ser cego.


Pois eu vi as lacunas da tristeza e da dor que a doença lhe causava.


Também com dor e tristeza, eu falei dos acontecimentos que sua memória fez questão de esquecer. Das dores que causou indiretamente, inconscientemente, mas pelas quais ela, sim, tinha sua parcela de responsabilidade e negligência quanto aos remédios.


Ela pôde reviver esses momentos através de minhas palavras, como se houvesse uma ponte entre a minha boca e sua mente.


Até mesmo se eu falasse uma mentira, ela seria perpetuada em sua memória como verdade, de tantas lacunas que existiam em seu pensar.


Isso eu não faria.


Isso eu não fiz.


Apenas observei as sinapses, os neurônios em sua cabeça se comunicando até o fim de minha última palavra.


Para aquele momento.


Aquele choro veio não como um dilúvio ou tempestade, não como cachoeira ou erupção.


Mas sim como um soluço.


— Isso não vai mais acontecer, filho.


— Não? Eu sempre me pergunto quando vai ser a próxima vez.


Agora, sim, veio o dilúvio sobre mim.


Não sobre ela.


Caí ao chão, cego como queria ser no início. Surdo como nunca quis ser. Como um peixe em um mangue seco que se esqueceu de como respirar, a metros de um dilúvio.


Ainda assim, achei que morria de sede.


— Calma, filho! Calma, filho!


E, mais uma vez, sua voz me alcançou.


Me levantei do chão e só enxergava o que me foi configurado para enxergar com estes olhos tão humanos.


- caramba Tiago a gente tem que esquecer isso

- não meu chapa, alguem tem que se lembrar. alguém tem que se lembrar....


Tiago (Black)


 
 
 

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